DIÁLOGOS:
Poemas
Anderson Lucarezi

 

 

 

O poeta Anderson Lucarezi (São Paulo, 1987) apresenta quatro poemas recentes baseados em obras minhas. Boa leitura!

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ILISSOS, 2018

LÁPIS DE COR

E CARVÃO SOBRE PAPEL DE REVISTA

21 x 29 cm

TALHOS N.10

na rolagem das coisas, cara topa cara,

palavra plena de presente se engatilha

em língua onde sílaba vacila, -gora.

cidade frustra expectativa sexual,

empurra passos e estilhaça silhuetas.

 

olhos em rotatória à cata de migalhas

consolam-se esculpindo o gozo solitário

no sketchbook da retina. carnadura evola-se

das cinzas do momento e monumentaliza-se:

libido livre molda marmanjos de mármore.

 

na sede estatuária de fazer durar,

lápis lambem folhas sem saber se os abdômens,

à espera de dentes que não peçam licença,

vêm das ruas ou saudades. corre o risco.

esboços, dez versões depois, arriscam:

 

ei, você, repara o jeito com que agora.

 

 

 

SAUDADES DE SODOMA

 

são reconhecimentos mútuos

que, olho no olho, segredam,

na iminência verde do sinal,

o estigma na cidade embrutecida.

 

volver de ombros entre censuras

ao que lateja no sexo, às saudades

de Sodoma, embora hoje em dia

o trânsito cresça também

na pista contrária à do acidente.

 

se em pensamento a figura perdura,

rótulas raspam ainda o piso, a língua

hábil ainda lambe, é hora do zoom

em flecha abstrair tal rosto em pixels.

 

o painel reticulado em tela insta

o tato sobre as paisagens epidérmicas

até que a emergência dos poros

verta a água, o sal e - vaga música -

o ouvido reouça: quieto, abre.

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BORDADO SOBRE CARNE

maravilhamento frugal que esplende

diante daquilo que é homem,

musculatura austera, interdita,

flagrada na ramagem das ruas:

 

fome bordada sobre carne viva.

 

no avesso da sutura, o ponto

prende – por um fio – as frases:

vem agora, são teus olhos de fava.

TITULO

MEDIA

CM

PLETHORA IV, 2020

BORDADO À MÃO SOBRE

LINHO ESTICADO

45 x 28 cm

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UM CARA NA CABEÇA, 2020

​ÓLEO SOBRE LINHO

40 x 30 cm

VASO SANGUÍNEO

se a presença inesperada excita o passante

e o agride, receosa de se afeminar

ou de se sentir aquilo que encalça - a caça,

do escrito não se safa, a poesia ensina:

palavra macha encerra verso feminino.

 

no outro, incapaz de desenvasar desejos,

desassombrá-los ânfora afora, o olhar,

socado, curte o esboço impresso sobre a íris,

evanescência - ávida - de madrepérola,

essa moldura dos músculos da figura -

 

sim, quatro letras U de ferradura escondem

ancestralidade masculina que oscila,

carne trêmula, na pupila, em revelo,

à beira do sangramento, vaso quebrado,

sobre fundo ainda branco (...) vazio (...) fragmento.

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VASO PARA ANTÍNOO 2, 2020

LÁPIS DE COR SOBRE PAPEL MADREPÉROLA

47 x 32 cm