Referências [References]
Projeto para o arte_passagem | abertura: 28 de setembro de 2018
[Upcoming project for arte_passagem | opening: September, 28th 2018
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"Diante do mistério. Homem de pedra, compreende-me" Breton
As cascas da lua (cadouços para Cida)
As cascas da lua são esconderijos para Cida.
Cida era a tia-avó de Matheus Chiaratti.
Cida era como a lua de Birigui, quando sua luz de prata cai sobre os caminhos escuros.
Cida era uma ninfa rural, outra no exílio, na errância.
Um dia, ao final de sua vida, Cida preferiu o bronze dos corpos que se abraçam sob a fragilidade das flores que murcham.
As cascas da lua é uma mostra de relíquias: a toalha de mesa, o sudário, a mortalha Iluminada de arabescos, florações, vestidos, amantes, espelhos, o pão sobre os panos, a igreja e o desejo, o jardim da infância e a morte, a luz que escreve os rostos nos sais de prata da fotografia que diz o passado, e uma flor no cabelo, um traje verde como as selvas, como os bosques, como os hortos.
Cida repousa nele, seu corpo de Marilyn delineado até seu braço que recai sobre a cintura como águas de um Niágara suave na memória.
As cascas da lua é também um sistema de oferendas, um álibi de coisas para atentar à memória ou reparar o passado: há o lugar santo do alimento, e o linho imenso pra nenhum corpo que anuncia a ausência de todos os corpos.
Há pequenas pinturas e ramalhetes de flores.
Há sapatos para percorrer o espaço imperscrutável que nos separa da infância, ou para saltar ao futuro; e, como um eco, estão os sapatos de Cida quando caminhava o jardim de seus desejos: chegar a ser com outro, e chegar a ser outra.
Ao final de sua vida – me diz Matheus – Cida pôde comprar um fundido em bronze de Rodin: representa um abraço, L’emprise ou le peché, o domínio ou o pecado; ser de outro e, também, fazer-se vulnerável.
Eu me pergunto: por que buscamos sempre o improvável futuro no jardim da infância?
Matheus Chiaratti dispôs as coordenadas de um hortus conclusus, um horto cerrado na memória, fazendo de Cida o astro e a estrela dessa lavoura.
Cenografia de fragmentos, necessariamente dispersos, como todo relicário; em As cascas da lua se repete a incessante ausência dos corpos que a vida separa.
Cida e os amores. Aquele que fomos e o que está por vir.
Matheus Chiaratti rompeu seu tornozelo enquanto preparava essa mostra. O pé inchado de Édipo veio à sua memória. Não o pé ligeiro de plumas de Hermes mensageiro. Matheus retorna, assim, ao jardim que perdemos, ao tempo sem palavras da infância.
E, então, a linguagem aparecerá para marcar as distâncias, o abismos, a separação, a dor.
Para marcar com seu som a ausência do que já foi.
Lembro-me da Lygia Clark que havia quebrado o punho e que, ao inflar do ar de seu sopro a bolsa que o curava, pôde encontrar o caminho para que uma pedrinha afundasse e voltasse a emergir como um novo nascimento.
Pedra e ar.
Lua e casca de luz, crosta da lua que ilumina na noite o caminho do passado: imobilizado por seu tornozelo roto, Matheus Chiaratti encontrou também a via relacional para poder estar, de fragmento em fragmento, como uma fala que se recompõe na fonte do que havia se esquecido, no incessante, impossível lugar do nascimento.
Luis Pérez-Oramas
INFO
As cascas da lua (cadouços para Cida)
Abertura: 27 de junho de 2026
Até 15 de agosto de 2026
Quadra
Rua Barão de Tatuí, 521, São Paulo

©2024 by Matheus Chiaratti.













