residência Villa Lena

Palaia, Itália

Outubro, 2020

poeta do sul

Para a minha estadia na Villa Lena, invoquei o espírito do poeta gay norte-americano Frank O’Hara (1926-1966). As leituras do seu “Lunch Poems” me guiaram em uma jornada particular e religiosa.

 

O ateliê, onde a luz natural entrava silenciosamente, me lembrou uma pequena capela de parede branca central conduzindo o espectador a uma espécie de altar por preencher. Depositadas as pinturas, os objetos, a fotografia e a escultura, me arrebatou a sensação de calma.

O objeto ao chão, empilhado de pedras e fragmentos, me gerou uma curiosidade nova, ao fim, percebi que simulava um relicário, contendo nele a presença de um corpo como apelo ao estado da mais pura graça e gozo. Em português, a palavra gozo tem no seu duplo sentido erótico/religioso um alcance poético que muito me interessa e é nesse encontro que busco a transfiguração desse personagem gay histórico, biográfico, literário, a promiscuidade do espiritual no sexo, do sexo no espiritual.

 

A camisa O Poeta do Sul talvez seja a obra mais clara pois personifica o poeta O’Hara e indica a sua presença o dia todo no espaço. Por sua vez, a escultura de chão Tunis O’Hara Avanhandava, como dito, abraça a presença do corpo dentro do relicário como nos santuários medievais (o Santo Prepúcio de Cristo, a túnica de São Vicente de Saragoça). Aqui, no entanto, o fragmento adorado é o de um meteorito, o Avanhandava, caído no interior de São Paulo em 1955 a poucos quilômetros da minha cidade natal; é essa a prova objetual imantada de história que adensa às pilhas de pedra uma terceira narrativa.

Esse é o pequeno relicário que também incorpora as pedras e objetos encontrados ao redor do ateliê em uma maneira de ampliar as presenças (quantos outros artistas passaram por ali antes de mim?), capturar os rastros, fundar o solo da igreja.

As pinturas e os objetos da parede se mesclam como uma constelação ao redor do pequeno postal do poeta à esquerda. São formas abstratas de sagração: das pinturas, um jarro antigo, um busto delineado só com linhas contra o linho cru, uma composição colorida e muito gestual à qual chamei de “cabeça de anjo”, pregos enferrujados que lembram vírgulas, um poema do O’Hara escrito e colado à mão toscamente. São fragmentos que invocam e adoram uma vida.

Por fim, está em produção uma litogravura para a Villa Lena Foundation junto à tradicional escola Il Bisonte, em Florença. A edição é um desenho da capa refeita do livro de bolso

“Lunch Poems”, minha espécie de bíblia desse mês em Palaia.

> Clique aqui para ler o texto publicado no Villa Lena Jorunal 

INFO

Poeta do Sul - Matheus Chiaratti

Trabalhos produzidos durante a residência na Villa Lena, Itália

13 de Outubro a 2 de Novembro, 2020

Fotografias: Marco Farmalli

©2020 by Matheus Chiaratti.