dez.2018-

continua

buscando Rimbaud nas pedras. visitei Rimbaud no começo de dezembro de 2018, em uma viagem de trem partindo de Brescia com uma parada em Paris antes de me dirigir a Ardennes. Meio aos protestos do gilet jaune, meu hotelzinho bem perto da Bastille fedia a fumaça. Rumei em um domingo a Charleville sem saber o que iria encontrar. Uma chuva fina e poucos passos a pé da estação cruzando a praça já me faziam avistar o Hôtel de Paris do outro lado. Logo na entrada, um busto de Rimbaud em gesso, em branco, muito mais alto do que se esperaria.

Rascunhei alguns versos do quarto na madrugada do hotel.

 

sol e carne

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I

Enquanto fundos vazios se irrompem de água,

o chão se levanta à carruagem do breu.

Meus estilhaços, meu feiticeiro,

distante e próximo.

A voz da boca do céu à língua próxima dos dentes de verso,

parole, palavra pura.



II

Da terra recebi seu nome, 
escorado em pedras piangenti mais a chuva.

VIII

Quantas noites necessárias

para descobrir as curvas do seu corpo? 
Quantas?

 


IX

Esta cidade de ladrões
não me fará perder os tesouros.

Penso em te visitar uma última vez antes do trem partir

às 10h46 para Paris. 

Vejo a sua cidade coberta de breu
importo o breu das quinas da ponte,
o meio-fio irresoluto ao meio-dia do escuro,
escuto a ponte.
Chego ao amanhecer de Charleville-Mézières com chocolate dark no bolso,

                                                                          
temo a minha saúde literária, mas estou no ápice dos sonhos.

torço, retorço a palavra e te reforço,
amante do meu escuro, 
espécie de meneliks em juta,
te escrevo em nome à grave
repousa o teu corpo no mausoléu da minha cabeça,
honrarias, caravanas, pernoites largas
tua calça ou tua bermuda. 

Vejo a sua tumba,
olho as grades, vigio a terra.
Meu corpo estátua no Hôtel de Paris cabe no seu corpo estátua
pereço em frente a tua fonte,
cheio de mim, cheio de ti,
à tua natureza, rendo e ouço.